
Boletim Comunitário: A sua história no mundo cultural é nacionalmente reconhecida. Como iniciou seu interesse nesta área?
Paulo Sergio Duarte: Os amigos sempre exageram. Meu interesse começa cedo, mas o ano de 1965 me marcou quando eu tinha dezenove anos. Estava muito decepcionado com os rumos que o país havia tomado depois do golpe de estado de 1964. Fomos derrotados na luta pelas reformas de base. Naquele ano de 1965 eu frequentava o Museu de Arte Moderna quase diariamente. A presença sensível de minha namorada Sylvia Goyana de Carvalho, estudante de arquitetura, apaixonada pela obra de Picasso, e aluna de Ivan Serpa fortalecia essa minha atenção pela arte. Outro amigo desse tempo sempre inteligente e inovador era o cineasta Carlos Alberto Ebert. No MAM acompanhei todo o ciclo do cinema fantástico, que incluía as obras fundamentais do cinema expressionista alemão. O conservador da cinemateca era meu amigo José Sanz. Ainda no MAM, nesse mesmo ano, vi as exposições de relevos de Sergio Camargo e a antológica Opinião 65, organizada por Ceres Franco e Jean Boghici, na qual entrei em contato com os Parangolés de Hélio Oiticica. Estavam lá Antonio Dias, Gerchman, e tantos outros. Ainda em 1965, estimulado por Sylvia Goyana, visitei pela primeira vez a Bienal de São Paulo, eu nunca tinha visto os limites da pintura na extensão de uma obra como a de Barnett Newman que estava na Bienal. Depois, na universidade me envolvi com o movimento estudantil e dessa participação derivou minha ida para Paris, em 1969. Outro momento decisivo foi em 1971, quando residi em Milão por um ano, e me tornei amigo de Antonio Dias. O contato direto com a obra do artista no ateliê, em pleno desenvolvimento, e com as primeiras obras de Iole de Freitas, marcaram minha escolha em estudar teoria e história da arte.
Boletim Comunitário: O que o senhor destaca em toda a sua carreira?
Paulo Sergio Duarte: A oportunidade de encontrar, me tornar amigo, e acompanhar de perto o desenvolvimento de artistas relevantes da minha geração: Antonio Dias, Antonio Manuel, Carlos Vergara, Carmela Gross, José Resende, Iole de Freitas, Tunga, Waltercio Caldas, e ainda a amizade com Eduardo Sued, e aqueles que já se foram como Amilcar de Castro, Lygia Clark e Sergio Camargo. E agora o contato com obras de artistas mais jovens como Laura Erber, Paulo Vivacqua e Thiago Rocha Pitta. Esse contato e amizades, para mim ao menos, são muito importantes na minha formação. Talvez mais importantes que todas as grandes exposições e todos os livros que li e que ajudaram também a me formar. Igualmente importante é o contato e o diálogo com a obra de meus amigos teóricos e críticos como Glória Ferreira, Paulo Venancio Filho, Rodrigo Naves, Ronaldo Brito, Sonia Salzstein. Numa época de globalização o fato de existir essa força de obras e de teoria local é muito importante, nossa província é muito cosmopolita.
Boletim Comunitário: O senhor trabalhou com Darcy Ribeiro e trabalha com Candido Mendes. Como lê estas figuras?
Paulo Sergio Duarte: O encontro, a amizade, e a oportunidade de trabalhar com pessoas da estatura de Darcy Ribeiro, Candido Mendes, Maria Yedda Linhares e Gerardo Mello Mourão, me deu o que muitos da minha geração perderam e muitos jovens nem chegam a pensar: o sentido da generosidade ao formular problemas à altura da nossa sociedade. A escala dos problemas tratados hoje é uma escala mesquinha, que apequena tudo e com frequencia vai do nada a lugar nenhum. Darcy, Candido Mendes, Maria Yedda e Gerardo, cada a seu modo me devolveram o sentido humano da generosidade na formulação de problemas, que meus pais haviam me passado, e os anos de militância, de exílio e especialização haviam apagado.
Boletim Comunitário: Quais as principais atividades do Centro Cultural?
Paulo Sergio Duarte: Para esse ano de 2009 estabelecer bases materiais corretas para a conservação de seu acervo de obras de arte e de sua memória guardada sobretudo no grande arquivo de vídeo que se estende desde os anos 80 até os dias atuais. Esta é a principal prioridade: será necessário sua urgente digitalização porque o meio analógico vai se perder. Depois continuar o trabalho da difusão de artistas e diretores de teatro que ainda não ocupam um lugar firme no mercado e no sistema da arte; recomeçar os cursos de extensão no campo prioritariamente da crítica e história da arte; e dinamizar e enriquecer a página do Centro Cultural no site da Candido Mendes.
Boletim Comunitário: Quais os seus projetos?
Paulo Sergio Duarte: Viabilizar as atividades do Centro Cultura tal como exposto acima.