
Boletim Comunitário: Como o senhor tornou-se professor da Candido Mendes e diretor do FUCAM?
José Augusto Galdino da Costa: Há quase trinta anos, fui indicado pelo Professor Luis Fernando Ribeiro Matos a assumir, como professor assistente, duas turmas de processo civil, turno da manhã, em virtude de problemas de relacionamento das turmas com o professor titular da cadeira. Era Diretor da Faculdade o Professor Manuel Cavalcanti. O trabalho foi duro, com muitas aulas aos sábados e freqüência maciça das turmas e outros alunos que apareciam por iniciativa própria. Certa feita, um aluno espirituoso aguardou o início da aula e quando todos estavam presentes, sem nenhuma relação de causalidade, perguntou-me: o que significa a expressão decidir em pé? O silêncio era sepulcral. Senti que se tratava de um teste indesejável. Depois de advertir docemente o aluno, desafiei-o a trazer ele próprio a resposta, depois de consultar um dos volumes de Processo Civil, do clássico Souza Pinto, indicando-lhe, de memória, o parágrafo e a página. Tive sorte. Há pouco eu havia lido esse Autor. Para surpresa de todos, o aluno pediu desculpas e sacando suas anotações, confirmou o que eu havia dito. Nunca mais tive qualquer problema com as turmas.
No FUCAM, a minha história é de amor. Amor à Casa, amor aos alunos que aprendem e que olham os irmãos necessitados nos olhos. Tudo começou com algumas palestras e diálogos estabelecidos, via Diretório Acadêmico, conscientizando os alunos de que o FUCAM era mais do que um bom escritório modelo de advocacia. Era, na verdade, um escritório modelo de cidadania. Os alunos deveriam não só valorizar esse serviço criado pela Candido Mendes onde aprendem o ofício, mas ter orgulho de dar aos menos favorecidos uma pequena parcela de colaboração para que o acesso à justiça não fosse palavras ocas. Presidia o DARB um aluno meu, Cassiano Mendes, hoje Secretário de Esportes e Turismo do Governo do Estado do Acre, que me colocou contra a parede, na presença do Diretor da Faculdade, professor José Baptista, dizendo: Professor, é chegada a hora do senhor por em prática suas idéias no FUCAM.
BC: Em sua vida profissional, o que lhe causou mais satisfação e orgulho?
Galdino: Tive e tenho orgulho e satisfação de conviver com muitas pessoas, bons alunos, profissionais competentes e ótimos cidadãos. Principalmente tenho orgulho de ser membro da Candido Mendes, que me tem ensejado a convivência com pessoas extraordinárias e me auxiliou nos momentos mais espinhosos da minha vida.
BC: O que é o FUCAM?
Galdino: Posso dizer, sem receio de errar, que o FUCAM é o orgulho da Candido Mendes. É uma escola de aprendizado e, principalmente, uma escola de cidadania e de esperança. Se por um lado, o aprendizado prático, técnico e crítico são realidades para os alunos, por outro, o desempenho pessoal consciente em favor dos necessitados anima a chama de esperança na Justiça, naqueles que nada ou muito pouco esperam.
BC: Qual a importância do FUCAM no desenvolvimento do aluno de Direito?
Galdino: O aprendizado simplesmente teórico é, como penso, adestramento sem rosto. É muito pouco resolver as questões jurídicas à luz da técnica. É preciso ensinar e principalmente aprender a relacionar-se com o outro. Relação de pessoa a pessoa, com todas as implicações humanas daí decorrentes. Na minha opinião, essa, dentre todas as outras, é a maior importância do FUCAM no desenvolvimento do aluno de Direito.
BC: Quais os benefícios do FUCAM para a sociedade?
Galdino: Além dos aspectos já mencionados, o FUCAM tem sido o único porto seguro para os marginalizados ou desassistidos que o procuram. É preciso destacar que o entendimento clássico de hipossuficiência econômica não mais se coaduna com a realidade atual. Grande é o número de pessoas que, no passado, tinham vida razoável como membros da classe média e hoje não podem dispor de verba para o pagamento das custas e encargos processuais, sem prejuízo para o próprio sustento.
BC: O que diferencia o formando em Direito da Candido Mendes?
Galdino: O formando em Direito da Candido Mendes é tratado de forma diferente e concorre de igual para igual com os colegas das outras Escolas ou linhagem. Em muitos aspectos, a sociedade brasileira ainda se atém a títulos nobiliários. O formando daqui é nobre por si mesmo. São eles encontrados em todos os grandes escritórios de advocacia do Rio de Janeiro, além dos estágios nas Procuradorias do Estado e Município; Ministério Público; Judiciário, dentre outros.
BC: Quais as possibilidades de mercado para quem se gradua em Direito?
Galdino: Ao longo desses anos, tenho visto nossos ex-alunos realizarem-se ou sobreviverem com dignidade do trabalho profissional da advocacia. São guerreiros que lutam por dias e por uma sociedade melhores. Nosso país não sobreviveria e nem seria melhor sem eles. O mercado é exigente e os que se nutriram da seiva da Candido Mendes não morrerão profissionalmente de desnutrição.
BC: Grande parte dos estudantes do curso de Direito, entram na faculdade com o sonho de prestarem um concurso e conquistarem a tão sonhada “estabilidade financeira”, o senhor acha que esta é a melhor opção atualmente?
Galdino: A necessidade é mãe de muitas coisas, alimenta muitos sonhos e pode destruir muitas esperanças. É verdade que muitos bacharéis em Direito estão à busca de um emprego com estabilidade. Também é verdade que o cargo almejado por concurso é ditado pela vocação da família. Em ambos os casos, é indispensável não perder o sentido do outro. A estabilidade financeira não pode ser um fim em si mesma. É preciso ter a consciência, ou então o sistema legal ter mecanismos efetivos de afastar das funções públicas quem não serve para servir à sociedade.
BC: Os alunos formados na Candido Mendes estão aptos à realizar o exame da OAB?
Galdino: O desempenho dos nossos formandos no exame da OAB vem sendo acompanhado com grande interesse. Em geral, pode-se afirmar positivamente. A Candido Mendes é, por excelência uma escola de advocacia, por isso as mudanças implementadas pela OAB não nos passam desapercebidas.
BC: Algumas unidades da Candido Mendes, como a de Padre Miguel, realizam simulados, com o objetivo de preparar de forma mais eficiente o aluno para o exame da OAB. De que forma este simulado ajuda o aluno?
Galdino: A iniciativa é ótima. A prova da OAB tem aspectos genéricos e específicos do ponto de vista formal e material. Ocorre que, sob o ponto de vista formal, nem sempre o aluno tem oportunidade de trabalhar as matérias como lhe são exigidas no referido exame. Os Professores do FUCAM têm trabalhado com os alunos, direcionando as provas e trabalhos regulares, sem prejuízo do conteúdo material, na forma do exame da OAB. Na Unidade do Centro, também são realizados simulados e estamos realizando estudos no FUCAM para sugerir que, em parceria com o NEAC, seja desenvolvido o projeto de Aperfeiçoamento Constante, aberto à participação de ex-alunos.
BC: A sociedade brasileira acha que a Justiça é muito lenta e injusta. Qual sua opinião sobre esse assunto?
Galdino: A nossa Justiça é, na maioria das vezes, muito lenta e muito cruel. O insuspeito Piero Calamandrei comparou a Justiça às comédias, nas quais, os guardas sempre chagam atrasados. Conheço muitos casos de pessoas que foram violentadas nos seus direitos e inobstante reconhecidos pela Justiça, deixaram o nosso convívio, sem usufruir, como permite a lei, os seus benefícios. É preciso reconhecer, no entanto, os esforços que têm sido despendidos e que essa lentidão e crueldade são apenas a ponta de um iceberg que não mostra os 9/10 de problemas e complexidades abaixo da linha do visível.